Guilherme Kramer

Guilherme Kramer
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Como falar dos livros que não lemos?
Veja bem, tenho algumas coisas desconexas a dizer. Aparentemente desconexas. Eu costumo ser boa em encaixar coisas aparentemente desconexas de uma forma esteticamente aceitável porque li quase todos os livros de Milan Kundera, inclusive “O insustentável peso das pálpebras”, muitas vezes. Li não, folheei. Na verdade, eu li. As coisas que Pierre Bayard diz no livro que pretendo comentar fazem sentido, mas não todo sentido. Ele propõe que classifiquemos os livros que citamos a partir da intensidade de contato que tivemos com eles. Como se os livros fossem ETs. Os níveis de intensidade de Bayard são: LD (livro desconhecido), LF (livro folheado), LO (ivro de que ouvir falar) e LE (livro esquecido). Mas o que Bayard esquece é que, quando um livro te abduz e faz experiências bizarras com você, quando você sabe trechos inteiros dele, cita à exaustão e contamina a lombada com o cheiro do seu sovaco, aí você realmente leu e realmente está perdido para a biblioteca, como diz o bibliotecário de Musil. Dentro desta classificação altamente sectária, posso afirmar que li Kundera, Rowling, Salinger e Dostoievski. Não é uma
lista da qual possa me orgulhar, mas destroçar o próprio ego em público é só outra forma de lustrá-lo. E é essa a segunda coisa que Bayard finge não saber ao assumir não ter lido Joyce e ficar esperando um high-five.
Pierre Bayard leciona literatura francesa na Universidade de Paris, é psicanalista e escreveu um livro chamado “Como falar dos livros que não lemos?”. A capa, assim como o título, tem pinta de auto-ajuda pretensamente engraçadinha. Comprei para presentear minha melhor amiga que, desde sua inesperada aprovação no vestibular tem sido atormentada por sua mãe, que acha que ela deve ler um bom livro e assistir a um bom filme por dia. “Projeto Virar Pessoa Interessante”, é como costumo chamar essa espécie de promessa de fim de ano que devemos largar na areia da praia, junto com as rosas e os vômitos, pelo bem da paciência das pessoas que nos cercam. O último conhecido que implementou esse projeto foi um amigo da minha irmã. Freqüentava shows de Calcinha Preta e gostava de Antes do pôr-do-sol. Algumas aulas de André Setaro e muitas idas à locadora pegar a filmografia dos grandes mestres depois ele pode ser visto no orkut – de sobretudo e echarpe – na frente da Torre Eiffel.
O livro de Bayard diz algumas obviedades necessárias. Basicamente, que as pessoas mentem demais sobre a quantidade (e qualidade) dos livros lidos; que a leitura não é o processo homogêneo de assimilação integral que gostamos de acreditar; que outras formas de contato (resenhas, críticas, orelhas, folhear, ouvir falar…) ocasionalmente podem nos fornecer tanto ou mais subsídio para falar sobre um livro do que uma leitura integral relapsa e – aí entra a parte psicanalítica intragável – você não deve se sentir inferior por não ter lido determinados livros porque o conhecimento é inevitavelmente fragmentado.
O desespero causado pela impossibilidade de dar conta de todo o material escrito existente, tal como a mentira sobre o volume de sua bagagem literária ou mesmo o cinismo de assumir julgar livros sem tê-los lido, não são angústias nem atitudes novas, embora assumi-las publicamente permaneça inovador. Zaid, Valéry, Wilde, Barthes e tantos outros já trataram do assunto. Talvez Woody Allen tenha encarnado o trauma do não-leitor da melhor forma possível em “Zelig”. Zelig é o "camaleão humano", o personagem que absorve as características de quem o rodeia, numa tentativa desesperada de ser bem quisto. Os distúrbios de personalidade de Zelig surgiram na escola, onde ele dizia ter lido “Moby Dick” porque as pessoas inteligentes diziam ter lido Moby Dick. E é isso que nós somos: Zeligs. Antes e depois do livro de Bayard.